Por que a beleza importa na arte?

📚Por que a beleza importa na arte?

Por Stella Gaspar
9ª Edição – Maio de 2026 – Jornal The Bard News

📊 INFORMAÇÕES BÁSICAS

Gênero: Ensaio / Filosofia & Estética
Temas centrais: Beleza, arte, filosofia, estética, percepção, emoção, Santayana, Kant, Platão

📰 RESUMO

Em um mundo onde a arte frequentemente busca provocar, chocar ou questionar, a beleza ainda tem lugar? No ensaio “Por que a beleza importa na arte?”, Stella Gaspar revisita o conceito de beleza, não como mero ornamento, mas como uma medida de afeto e emoção, uma comunicação bem-sucedida entre artista e observador.

O texto explora as diferentes concepções filosóficas — de Platão e Kant, que veem na beleza uma dimensão cognitiva e uma ordem que ressoa com a sensibilidade humana, às teorias hedonistas que a conectam ao prazer. A autora argumenta que a beleza não é sinônimo de suavidade, podendo ser inquietante e perturbadora, e que sua percepção muda com o tempo, a cultura e a política. Ao destacar a teoria de George Santayana, que defende a beleza como uma experiência humana e uma necessidade emocional, o ensaio propõe que a busca pelo belo é universal e que a arte, ao tocar e elevar, afirma a sensibilidade em meio a um cenário saturado de estímulos. A beleza, conclui o texto, importa na arte porque importa em nós, sendo um gesto de lucidez e resistência íntima.

Por que a beleza importa na arte?

O conceito de beleza na arte

A beleza é, antes de tudo, uma medida de afeto e emoção. No contexto da arte, ela funciona como um indicador de comunicação bem-sucedida entre artista e observador, a transmissão sensível de um conceito, de uma visão ou de uma experiência. A beleza não é mero ornamento: ela organiza o caos, oferece sentido e cria padrões que ajudam a compreender o mundo. Filósofos como Platão e Kant defendiam que o belo possui uma dimensão cognitiva, capaz de ensinar sobre harmonia, proporção, equilíbrio e até sobre nós mesmos. Quando uma obra nos comove pela beleza, não estamos apenas admirando formas; estamos reconhecendo uma ordem que ressoa com nossa sensibilidade.

O belo é aquilo que provoca uma experiência estética significativa, seja pela forma, proporção, harmonia, estranhamento ou efeito sensorial, cultural e histórico.

A beleza está em toda parte: nos detalhes da vida, nos gestos, nos movimentos que nossos olhos captam e nossas mãos tocam. Importa lembrar que beleza não é sinônimo de suavidade. Há obras belas que inquietam, perturbam e obrigam o olhar a permanecer onde preferiria não estar. As concepções de beleza, ao longo da história, buscaram captar o que é essencial em todas as coisas belas.

As concepções clássicas definem a beleza pela relação entre o objeto e suas partes: estas devem estar em proporção adequada entre si, compondo um todo harmonioso. Já as concepções hedonistas incluem o prazer na definição de beleza, argumentando que existe uma conexão necessária entre o belo e o prazer desinteressado. Outras teorias associam a beleza ao valor, à atitude amorosa diante do objeto ou à sua função.

Um elemento comum entre muitas concepções é a relação entre beleza e prazer. O hedonismo estético sustenta que a experiência do belo é sempre acompanhada de prazer. Tomás de Aquino descreve a beleza como “aquilo cuja apreensão agrada”. Kant, por sua vez, explica esse prazer como resultado da interação harmoniosa entre imaginação e entendimento. Surge então o dilema: algo é belo porque nos agrada, ou nos agrada porque é belo?

O que consideramos belo muda com o tempo, com a cultura e com a política. Debater beleza é debater valores. Quando uma obra é acusada de “não ser arte” ou “não ser bela”, é a arte que desagrada. O que está em jogo é menos a obra e mais o que a sociedade está disposta a reconhecer como digno de atenção. muitas coisas que têm beleza não são obras de arte, mas objetos naturais.  A beleza, portanto, não é apenas uma questão estética, mas também ética e social.

 

A beleza na arte importa?

A beleza está essencialmente ligada à arte. Podemos encontrar beleza e arte nas pequenas coisas, na essência interpretável do cotidiano. Cada pessoa, em sua interioridade, pensa, sente e admira de maneira singular. A beleza, por séculos tratada como essência da arte, voltou ao centro das discussões culturais. Em meio a obras que provocam, chocam ou questionam, surge a dúvida: a beleza ainda é necessária ou apenas um elemento entre tantos outros?

A arte moderna e contemporânea mostrou que o feio, o desconfortável e o dissonante também têm lugar. Obras que rompem com padrões estéticos tradicionais revelam que a beleza pode ser uma escolha, não uma regra. Ao negar o belo, muitos artistas buscam provocar reflexão, denunciar desigualdades ou expor tensões sociais. Paradoxalmente, essa ruptura reforça a importância do debate sobre o que consideramos belo.

Entre as teorias subjetivistas, destaca-se a de George Santayana. Em The Sense of Beauty (1896), ele propõe uma estética baseada na psicologia naturalista, defendendo que a beleza não é propriedade das coisas, mas uma experiência humana, resultado da interação entre percepção, emoção e imaginação. A beleza, portanto, revela a dimensão afetiva da nossa relação com o mundo; depende tanto do objeto quanto da capacidade humana de ver, sentir e atribuir sentido. Podemos, assim, caracterizar a atitude da contemplação estética com uma “escuta” da nossa capacidade de sentir, por assim dizer, pois ela é para essa capacidade exatamente o que a escuta é para nossa capacidade de ouvir.  Ou seja, a obra de arte é o símbolo objetivo do sentimento.

A teoria de Santayana permanece atual porque:

  • mostra que a beleza é uma necessidade emocional, não um luxo;
  • explica por que o gosto varia, mas a busca pelo belo é universal;
  • revela que a arte não é apenas técnica, mas também psicologia e sensibilidade;
  • ajuda a compreender o papel da estética na vida cotidiana.

Para ele, a beleza é uma forma de afirmação da vida: um modo de transformar a experiência em algo que vale a pena ser contemplado.

 

Conclusão

Quanto mais somos, mais ricas se tornam nossas vivências. Quando Santayana afirma que o belo é um valor, ele indica que aquilo que escolhemos considerar belo revela quem somos, o que desejamos e até o que tememos. Talvez esse seja o ponto mais urgente de sua filosofia: recuperar o direito ao encantamento como forma de resistência íntima. Em um cenário saturado de estímulos, recuperar esse direito é mais do que um gesto estético, é um gesto de lucidez. Mas quem sabe possamos parar para contemplar a beleza do inexplicável.

A beleza importa na arte porque importa em nós. Em meio a urgências, desafios e incertezas, a capacidade de tocar, elevar e fazer o olhar permanecer é uma afirmação de que a sensibilidade ainda tem lugar.

 

Referências

AQUINO, Tomás de. Suma Teológica. Parte I.
KANT, Immanuel. Crítica da Faculdade do Juízo. São Paulo: Forense Universitária, 2016.
PLATÃO. A República.
PLATÃO. Hípias Maior.
SANTAYANA, George. The Sense of Beauty. New York: Charles Scribner’s Sons, 1896.

 

❓ PERGUNTAS PARA O LEITOR / CLUBE DE LEITURA (COM RESPOSTAS)

  1. Como o ensaio define a beleza e qual a sua função principal no contexto da arte?
    Resposta: O ensaio define a beleza como uma medida de afeto e emoção, funcionando como um indicador de comunicação bem-sucedida entre artista e observador. Sua função principal é organizar o caos, oferecer sentido e criar padrões que ajudam a compreender o mundo, possuindo uma dimensão cognitiva que ensina sobre harmonia, proporção, equilíbrio e sobre nós mesmos.
  2. De que forma as concepções clássicas e hedonistas da beleza se diferenciam e se complementam, segundo o texto?
    Resposta: As concepções clássicas definem a beleza pela proporção e harmonia entre as partes de um objeto, compondo um todo. Já as concepções hedonistas incluem o prazer na definição, argumentando que a experiência do belo é sempre acompanhada de prazer. Elas se complementam ao abordar diferentes aspectos da experiência estética: a clássica foca na estrutura do objeto, e a hedonista, na resposta subjetiva do observador.
  3. Como a arte moderna e contemporânea, ao romper com padrões estéticos tradicionais, paradoxalmente reforça a importância do debate sobre a beleza?
    Resposta: Ao introduzir o feio, o desconfortável e o dissonante, a arte moderna e contemporânea mostra que a beleza pode ser uma escolha, não uma regra. Ao negar o belo, muitos artistas buscam provocar reflexão, denunciar desigualdades ou expor tensões sociais. Essa ruptura, no entanto, não elimina a beleza do debate, mas o intensifica, forçando a sociedade a reavaliar o que considera belo e digno de atenção, e por quê.
  4. Qual a contribuição de George Santayana para a compreensão da beleza, e por que sua teoria permanece atual?
    Resposta: Santayana, em The Sense of Beauty, propõe que a beleza não é uma propriedade intrínseca das coisas, mas uma experiência humana, resultado da interação entre percepção, emoção e imaginação. Sua teoria permanece atual porque mostra que a beleza é uma necessidade emocional (não um luxo), explica a variação do gosto enquanto a busca pelo belo é universal, revela que a arte envolve psicologia e sensibilidade, e ajuda a compreender o papel da estética na vida cotidiana.
  5. O que o ensaio quer dizer com a afirmação de que “recuperar o direito ao encantamento como forma de resistência íntima” é um “gesto de lucidez” em um cenário saturado de estímulos?
    Resposta: Em um mundo com excesso de informações e estímulos visuais rápidos e superficiais, parar para contemplar a beleza – seja na arte ou no cotidiano – é um ato de resistência contra a alienação. É um “gesto de lucidez” porque permite reconectar-se com a própria sensibilidade e com a capacidade de encontrar sentido e profundidade, afirmando que a beleza ainda tem o poder de tocar, elevar e fazer o olhar permanecer, em contraste com a transitoriedade das imagens descartáveis.

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