📚O Desaparecimento Da Moda Como Forma De Expressão Cultural
Por Mariana Pacheco
Jornal The Bard News – 10ª edição – Junho de 2026
📰 RESUMO
A moda sempre foi mais do que vestimenta. Ela já serviu como linguagem política, expressão de identidade feminina, marca de poder, símbolo de classe e até como retrato de nações inteiras. Neste ensaio, Mariana Pacheco percorre exemplos que vão de Maria Antonieta à Duquesa de Devonshire, do Diabo Veste Prada ao hanbok coreano, para mostrar como a roupa deixou de ser apenas manifestação cultural e passou a ser também produto padronizado, vendido como status e desejo.
O texto discute como a moda ainda guarda traços locais e históricos, mas cada vez mais se submete à lógica do consumo global. Entre o artesanal e o industrial, entre a singularidade cultural e a reprodução em massa, a autora pergunta o que resta da moda quando ela deixa de comunicar o lugar de origem e passa a comunicar principalmente quem pode comprar.

No filme “A Duquesa” (2014), que retrata a vida da duquesa de Devonshire, a personagem demonstra como suas vestimentas são ferramentas de comunicação e expressão feminina em um mundo masculina. Em um dos eventos que participa, a duquesa diz que a enorme pena que usa em sua cabeça tem apenas dois exemplares, aquele e outro em Versalhes, utilizado pela rainha Maria Antonieta. Da mesma forma, o filme de Sofia Coppola “Maria Antonieta” (2006) também expõe a influência da última rainha da França pelos seus enormes e caros vestidos, que extravasariam os cofres públicos. Ambas representariam uma época e dariam voz pelas roupas que usavam.
A moda, mais do a representação de um período histórico e a voz de um gênero, especialmente o feminino, também carrega elementos culturais – o período Georgiano na Inglaterra e o Rococó da França podiam ocorrer simultaneamente, mas o estilo das vestimentas carregava diferenças sutis que representavam a cultura local, como extravagância e sobriedade, tecidos e cores, acessórios e chapéus. A moda também é um elemento forte na hora de expressar uma identidade nacional, lhe dando poder de se comunicar e visibilidade para transformar.

Entretanto, a função da moda também se associa ao consumo. A moda, hoje, é formada dentro de ateliês, salas de editores de revistas críticas e de campanhas publicitárias, mas formar opinião das passarelas às lojas de departamento, como Miranda Priestly ensina em “O Diabo Veste Prada” (2006). Achamos que criamos e consumimos algo único, mas a roupa é feita para consumirmos, antes de comunicar nossa identidade. As francesas se vestem diferente das brasileiras. Os tons pasteis e sóbrios nas coleções Outono-Inverno da Europa não são os mesmo para o território Latino-Americano. Entretanto, a modelagem é similar. Se quer vestir como as potências da moda se vestem (Paris, Milão, Nova York). A moda tem reforçado o que antes já existia: é mais sobre venda de status do que cultura. A representação, porém, está sendo padronizada direto na fábrica.
Na Ásia, por exemplo, essa transformação está mais sutil e a roupa tradicional cultural ainda está presente, como o hanbok para a Coreia do Sul, ainda sendo um elemento marcante em eventos e cerimônias, além de representado em séries midiáticas. Entretanto, com o movimento pop da Onda Coreana, esta roupa ganha traços mais atualizados e vendáveis para uso diário e ocidental, em releituras que são apresentadas pelos ídolos de K-Pop. Assim, a identidade cultural vem sendo transformada em sua representação, e a moda é só um dos pontos deste processo, em que passado e presente podem transitar para criar novos vínculos fora daquele lugar de origem.
E até os lugares mais isolados também podem ter sua moda inserida no mercado de luxo ocidental e serem reinterpretados, como foi o caso do Butão, o chamado país da felicidade nos Himalaias, que ganhou 13 modelos de sapatos desenvolvidos pela marca Louboutin. O processo iniciou-se pela paixão do criador da marca, Christian Louboutin pelo país, então, em parceria com o governo local, acessa artesãos que criam 13 estampas tradicionais para uma coleção exclusiva que tem o Butão como referência – “LouBhouthan” (2012) -, e depois adiciona a costura e o solado vermelho que vende ao mundo luxo e status. Nesse último caso, a cultura tradicional, quando feita a mão, vira luxo, mas também se ocidentaliza, se comercializa por alto valor por sua raridade estética de uma cultura singular.
Por fim, a moda pode carregar elementos culturais e conversar com pessoas e países por conservá-los, entretanto, por estar estreitamente entrelaçada com o status de poder e o consumo, e isso desde sempre (não sendo exclusividade da modernidade), acaba por perder elementos singulares em pró da venda em nichos diferentes. E o consumidor se felicita por acessar algo que pode considerar único aquele país ou cultura – como o kimono (Japão) e o hanfu (China), considerados tradicionais, mas que podem facilmente ser encontrados em lojas de vestimentas na Liberdade, em São Paulo.
Hoje, a unicidade da moda não se resume à cultura, mas sim à individualidade de seu usuário. Os consumidores não querem ser associados à apropriação cultural, mas desejam que a roupa que usam carregue algo próprio de sua identidade pessoal. Por isso, os serviços de customização crescem e marcas que produzem sob medida e com exclusividade também tem maior valorização no mercado. Para se manter dentro da moda, a cultura precisa se fundir às linhas das máquinas massivas e continuar vendável. Entretanto, é desafiador sustentar esses termos e sua unicidade. O maior desafio é descobrir o que torna a identidade cultural vendável sem perder sua essência local.

❓ PERGUNTAS PARA O LEITOR / CLUBE DE LEITURA
- Por que a moda foi historicamente importante para a expressão cultural?
Resposta
Porque ela comunica identidade, época, gênero, poder e pertencimento, funcionando como uma linguagem visual da sociedade. - O que o texto critica na moda contemporânea?
Resposta
Critica o fato de a moda ter se tornado cada vez mais associada ao consumo, ao status e à padronização, perdendo parte de sua singularidade cultural. - Como o texto interpreta o uso do hanbok na Coreia do Sul?
Resposta
Como um exemplo de continuidade cultural que, ao mesmo tempo, é atualizado e comercializado por meio da cultura pop e da moda global. - Qual o caso do Butão representa no ensaio?
Resposta
Representa a transformação de uma cultura local em objeto de luxo ocidental, valorizado por sua raridade e estética artesanal. - Qual é a principal pergunta final do texto?
Resposta
Como tornar a identidade cultural vendável sem perder sua essência local.
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