📚Música e Identidade Nacional: mulheres no choro
Por Camila Barros
9ª Edição – Maio de 2026 – Jornal The Bard News
📊 INFORMAÇÕES BÁSICAS
Gênero: Ensaio / Música & Cultura
Temas centrais: Choro, identidade nacional, patrimônio cultural, mulheres na música, representatividade, memória
📰 RESUMO
Quando se pensa em choro, a imagem que surge é quase sempre masculina. No ensaio “Música e Identidade Nacional: mulheres no choro”, Camila Barros questiona essa memória construída, celebrando o choro como Patrimônio Cultural do Brasil (reconhecido em 2024) e, ao mesmo tempo, buscando ampliar a representatividade feminina nesse gênero musical.
O texto explora como a patrimonialização do choro, embora importante, precisa de contextualização para garantir que o “mosaico cultural” que o constitui inclua a diversidade de sotaques, ritualidades e, principalmente, a participação feminina. Ao destacar figuras como Chiquinha Gonzaga, Tia Amélia, Lina Pesce, Carolina Cardoso Menezes e, mais recentemente, Luciana Rabello, Nilze Carvalho, Jane do Bandolim, Samara Líbano e Ângela Coltri, o ensaio resgata a contribuição essencial de mulheres que, muitas vezes invisibilizadas, garantem a continuidade e a reinvenção do choro. A autora defende que a identidade nacional do choro não é homogênea, mas um fenômeno vivo, construído nas práticas sociais e nas rodas, onde a redescoberta da presença feminina enriquece a memória desse patrimônio.

Música e Identidade Nacional: mulheres no choro
Quando se pensa em “vamos ouvir um chorinho”, “hoje tem roda de choro”, qual é a imagem que surge na mente de cada pessoa?
A imagem mental que se tem do gênero musical Choro representa justamente a memória construída histórica e socialmente sobre essa música. Tal memória é composta por diferentes sensações, contatos e histórias contadas sobre o choro. As vivências que temos nos dão ideias do que o choro pode significar e, a partir daí, desenvolvemos nosso próprio significado do que é o choro. Significar é um processo construtivo que engloba relações entre diversos elementos possibilitadas pela percepção sensível.
A partir do trabalho envolvendo pesquisadores e pesquisadoras, órgãos governamentais e não governamentais, musicistas, apreciadores e apreciadoras, em 29 de fevereiro de 2024 o Choro tornou-se Patrimônio Cultural do Brasil, registrado no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN)[1]. A coordenação de pesquisa e texto, no âmbito do desenvolvimento do dossiê para Instrução Técnica do Processo de Registro do Choro como Patrimônio Cultural do Brasil foi e continua sob responsabilidade de Lúcia Pompeu de Freitas Campos, Pedro de Moura Aragão e Rafael Henrique Soares Velloso. As informações coletadas para o dossiê – além do contínuo registro de acervos, ações de ensino, associações e clubes, rodas e locais de performance, discografia e pesquisas e publicações – estão disponíveis na Base de Dados Choro Patrimônio[2]. Se você tiver informações e quiser colaborar com a memória do choro, pode contribuir com a Base de Dados.

Ao tornar o Choro patrimônio, constrói-se uma caracterização e uma memória que preserva, além de pessoas, lugares e eventos, também rastros, pistas para construção de narrativas múltiplas e expandidas sobre o choro. Nesse sentido, mesmo que o Choro pareça constituir um tipo de identidade nacional geral e (quase) homogênea a partir de seu reconhecimento como patrimônio, o que ocorre é justamente o oposto.
O Choro patrimônio reflete o mosaico cultural que o constitui e a diversidade que povoa a cultura popular alheia às fronteiras político-geográficas. A palavra de destaque, então, é a representatividade.
Quantas expressões do “choro” são necessárias para compor uma identidade nacional tornada patrimônio? Quem, que lugares, que “choros” irão compor esse mosaico? Como mitigar ao máximo a possível invisibilização daquilo que não se tem conhecimento e, portanto, não se sabe do esquecimento?
O registro dessa memória, a forma de contar sobre a construção, permanência e mutações desse patrimônio depende de recortes, olhares, escolha de caminhos. Uma perspectiva para isso é a participação feminina no Choro.
Considerando que o papel de constituição de identidades plurais e que a continuidade ocorre nas práticas sociais, sofre mudanças, é recriada e ressignificada pelos grupos que a praticam, colocamos em evidência o choro, patrimônio brasileiro, fundado também por mulheres.
É preciso registrar que essa “descoberta” não é nova, mas sua redescoberta tem movimentado a cena do choro no Brasil e, consequentemente, a imagem construída sobre esse patrimônio e as identidades que representa.
Clamado como primeiro gênero musical genuinamente brasileiro e, reconhecidamente, como junção e/ou fusão de vários subgêneros (lundu, maxixe, polca, valsa, choro-sambado, entre outros), nomes como Chiquinha Gonzaga (1847-1935), Joaquim Callado (1848-1880), Ernesto Nazareth (1863-1934), Pixinguinha (1897-1973), Jacob do Bandolim (1918-1969) e Waldir Azevedo (1923-1980) são importantes referências do choro brasileiro.
Os citados como expoentes dessa música desenham um contorno quase que unicamente masculino à memória do choro. Chiquinha Gonzaga (compositora e pianista), graças a “Ô Abre Alas”, é a mulher mais lembrada quando o assunto é choro, já que teve a “audácia” de ter uma vida pública na música no final do séc. XIX. Já Tia Amélia (1897-1983, compositora e pianista), Lina Pesce (1913-1995, compositora e pianista) e Carolina Cardoso Menezes (1913-2000, compositora e pianista) não tiveram o mesmo reconhecimento.
Passando da primeira metade do séc. XX, temos outras choronas de grande escalão. Luciana Rabello (1961- ) é compositora e multi-instrumentista, reconhecida como cavaquinista, foi a primeira mulher a integrar um regional (grupo profissional de choro), “Os Carioquinhas”, em 1976. Sim, você não leu errado… isso aconteceu somente em 1976. Praticamente ontem…
Outros nomes poderiam ser citados como Nilze Carvalho (1969- , compositora, bandolinista e cavaquinista), Jane Silvana Corilov (1962- , Jane do Bandolim) e Samara Líbano (1985- , compositora e violonista sete cordas). Contribuindo para a cena atual do choro, Ângela Coltri (1981- ), compositora e flautista, lançou, em dezembro de 2025, o álbum “Eclipse”, exclusivamente com composições autorais originais.
Passando pelo choro, o álbum ainda traz choro-sambado, maxixe, landó (música afro-peruana) e valsa. O álbum pode ser acessado no canal oficial da instrumentista no Youtube:
e no Spotify:
Essas e muitas outras choronas garantem a continuidade da existência do choro pelas mãos e mentes femininas.
Quando se trata de identidade nacional o foco precisa ser na vivência do choro. O choro é um fenômeno que ocorre em todas as regiões do Brasil com diferentes sotaques e ritualidades. Não pretendemos, de forma alguma, reduzir a importância dos regionais e dos palcos para a disseminação desse gênero musical, mas é preciso considerar que, fundamentalmente, alguém precisa fazer a música, o choro precisa ser realizado por pessoas e é na performance que ocorre a efetivação das condições de criação e de reconhecimento da música. É no evento, no acontecimento musical, no fazer da roda de choro, no encontro de chorões, choronas, comunidades, ruas, esquinas, calçadas, que se revela o lugar social do choro. É daí que precisam ser extraídas as referências dos significados e das imagens mentais dessa sonoridade.
Em muitos casos, as convenções identitárias baseadas na música são transformadas em convenções de mercado e as características sociais e musicais são desfiguradas. Nesse ponto, retomamos a ideia de mosaico da memória cultural. Símbolos nacionais como aqueles representados pela patrimonialização são memórias registradas e sua fixação precisa de contextualização para garantir a tal representatividade.
Coletivos, grupos de choro e movimentos como a Roda de Choro Mulheril (Florianópolis, desde 2022), Roda das Minas (desde 2016, Curitiba), Abre a Roda (desde 2017, em Belo Horizonte), Chora – Mulheres na Roda (desde 2018, no Rio de Janeiro) – para os quais daremos mais atenção em outra oportunidade – são belíssimos exemplos da redescoberta do choro que contribuem para a composição da memória desse patrimônio. Nesse mosaico, o choro, como identidade nacional, ganha mais contornos também femininos.

[1] Disponível em: http://portal.iphan.gov.br/pag
[2] Disponível em: https://acervosvirtuais.ufpel.edu.br/choropatrimonio/
❓ PERGUNTAS PARA O LEITOR / CLUBE DE LEITURA (COM RESPOSTAS)
- Como a patrimonialização do choro pelo IPHAN, em 2024, pode influenciar a memória e a identidade nacional associada a esse gênero musical?
Resposta: A patrimonialização do choro pelo IPHAN em 2024 é um reconhecimento oficial que busca preservar e valorizar o gênero. No entanto, o texto argumenta que essa fixação da memória precisa de contextualização para garantir representatividade. Ao invés de criar uma identidade homogênea, o processo deve refletir o “mosaico cultural” que o constitui, abrindo espaço para narrativas múltiplas e expandidas, incluindo a participação feminina e as diversas ritualidades regionais. - O que o ensaio quer dizer com a afirmação de que a memória do choro tem um “contorno quase que unicamente masculino”?
Resposta: A afirmação se refere ao fato de que, historicamente, os nomes mais citados como expoentes do choro (Joaquim Callado, Ernesto Nazareth, Pixinguinha, Jacob do Bandolim, Waldir Azevedo) são predominantemente masculinos. Embora Chiquinha Gonzaga seja lembrada, outras mulheres importantes como Tia Amélia, Lina Pesce e Carolina Cardoso Menezes não tiveram o mesmo reconhecimento. Isso cria uma imagem mental do choro que invisibiliza a contribuição feminina, desenhando um perfil histórico que não corresponde à totalidade das práticas. - De que forma a trajetória de Luciana Rabello, ao integrar “Os Carioquinhas” em 1976, ilustra a questão da representatividade feminina no choro?
Resposta: A integração de Luciana Rabello em “Os Carioquinhas” em 1976 é destacada como um marco significativo, pois ela foi a primeira mulher a fazer parte de um grupo profissional de choro. O texto enfatiza que isso aconteceu “praticamente ontem”, sublinhando o quão recente é o reconhecimento formal da participação feminina em espaços de performance profissional do choro. Isso ilustra a luta por representatividade e a quebra de barreiras de gênero em um ambiente musical historicamente dominado por homens. - Por que o ensaio defende que o foco da identidade nacional do choro deve ser na “vivência” e na “performance” do gênero?
Resposta: O texto argumenta que a identidade do choro não deve ser reduzida a convenções de mercado ou a uma imagem homogênea. Em vez disso, o foco deve estar na “vivência” e na “performance” porque o choro é um fenômeno vivo, que ocorre em todas as regiões do Brasil com diferentes sotaques e ritualidades. É na prática social, nas rodas de choro, nos encontros de músicos e comunidades que o gênero se efetiva, se recria e se ressignifica. É nesses eventos que se revela o verdadeiro “lugar social do choro” e de onde devem ser extraídas as referências para sua memória. - Como os coletivos e movimentos femininos de choro mencionados no final do texto contribuem para a “redescoberta” e a “composição da memória” desse patrimônio?
Resposta: Coletivos como Roda de Choro Mulheril, Roda das Minas, Abre a Roda e Chora – Mulheres na Roda são exemplos de movimentos que ativamente resgatam e promovem a participação feminina no choro. Ao criar espaços onde mulheres tocam, compõem e lideram rodas, eles não apenas dão visibilidade a talentos contemporâneos, mas também forçam uma revisão da história do choro, trazendo à tona figuras femininas que foram invisibilizadas. Assim, eles contribuem para uma “redescoberta” do choro como um gênero mais diverso e para a composição de uma memória que inclui mais “contornos femininos” na identidade nacional do choro.
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