Por Alexandre Câmara
Jornal The Bard News 10ª edição Junho 2026
📊 INFORMAÇÕES BÁSICAS DO CONTEÚDO
- Tempo de leitura: 7 a 8 minutos
- Contagem de palavras: aproximadamente 1.150 palavras
- Contagem de caracteres: cerca de 8.000 caracteres
📰 RESUMO EXECUTIVO
O artigo mostra que o design vernacular não é simples improviso, mas um saber construído na prática, no território e na experiência cotidiana. Ao observar cartazes, placas, objetos pintados à mão e soluções populares, o texto revela como a cidade também escreve sua cultura em formas, cores e modos de uso.

Design Vernacular: Quem Escreve A Cidade Em Cores E Formas?
Em meio à agitação do centro da cidade, cartazes colados nos postes prometem fazer a pessoa desejada cair aos seus pés em até sete dias. Outros, espalhados sobre tapumes de prédios em reforma, anunciam empréstimos em condições “imperdíveis” ao menos à primeira vista. Um senhor organiza, com cuidado, pequenas antenas de TV feitas de cano de PVC, pintadas em cores vibrantes, prometendo acesso gratuito a centenas de canais e a um preço que torna o restante um detalhe. Na banca ao lado, mealheiros de gesso assumem a forma de super-heróis e personagens infantis versões livres, de proporções incertas, mas ainda assim familiares, parecem observar, atentas, o movimento.
À primeira vista, tudo isso pode parecer improviso, soluções de ocasião, não raro reduzidas ao rótulo de “gambiarra”. Mas há algo em comum nessas manifestações que escapa ao olhar apressado: elas não surgem do nada. Se não seguem regras formais nem cânones estabelecidos, por que ainda orientam, informam e fazem sentido? Acontece que, por trás de cada cartaz, objeto ou pintura existe um saber que se forma no tempo, aprendido aos poucos, repetido, ajustado, transmitido. Não é apenas fazer com o que se tem. É saber o que fazer com o que se tem.
Esse conhecimento raramente passa por manuais ou salas de aula. Ele circula de outro modo: na prática, na observação, na tentativa e erro, naquilo que funciona e, por isso, continua sendo feito. Está no letreiro pintado à mão com esponja de prato, que se adapta à irregularidade da parede; na barraca de feira que organiza cores e volumes para capturar o olhar; na placa simples que resolve comunicar com poucos recursos. Nada ali é completamente aleatório. Cada escolha, de forma, material, linguagem, responde a uma lógica, ainda que não formalizada.
É nesse território que se reconhece o chamado design vernacular, também referido como design popular ou cultural. Mais do que um fazer “fora da academia”, trata-se de um modo de produzir formas e sentidos profundamente enraizado no uso, no contexto e na experiência acumulada. São soluções que nascem da necessidade, mas permanecem porque funcionam, técnica e culturalmente. Riul e Santos (2015) lembram que o design vernacular não se reduz à forma ou à solução técnica: ele materializa valores culturais, saberes e relações com o ambiente. Os artefatos produzidos sob essa lógica expressam “ideias, visões de mundo e modos de vida” inscritos na cultura material. Com base em Prown (1982), os autores distinguem que artefatos correspondem aos elementos produzidos ou modificados pela ação humana, enquanto objetos podem incluir tanto esses elementos quanto aqueles existentes na natureza. Nesse sentido, a cultura material reúne o conjunto de artefatos utilizados por um grupo social, das produções artísticas aos objetos cotidianos, das vestimentas às construções, dos mobiliários às ferramentas.
Lorusso, Mazza e Guida (2025) ampliam essa leitura ao sugerirem que o vernacular, ou o popular, funciona como um repositório de conhecimento técnico e cultural, capaz de inspirar soluções contemporâneas. Nele, articulam-se memória, território e inovação. O que se revela, então, é que o vernacular não pertence ao passado: ele opera como um sistema vivo, em constante atualização.
Quando observadas mais de perto, essas formas deixam de parecer marginais ou provisórias. Revelam, na verdade, um sistema próprio de organização visual e material, no qual cada decisão responde a condições concretas e a repertórios compartilhados. Em contextos marcados pela escassez de recursos, a criatividade não é exceção, é método. O que se costuma chamar de improviso, muitas vezes, é apenas conhecimento aplicado.
E isso aparece nos detalhes. Na placa com letras espelhadas, sobretudo nos “R”, “E” e “S” que, ainda assim, não deixam dúvida sobre o que se quer dizer. No peixe desenhado de forma quase irreconhecível, que só se confirma como peixe pelas nadadeiras, pelo rabo e por algumas escamas insistentes. Na modelo internacional que anuncia um salão de bairro, provavelmente sem saber que sua imagem circula por ali. No pote de barro ligeiramente torto. Na estampa da toalha de prato fora de registro.
Nada disso compromete a comunicação. Porque, no fundo, essas formas operam a partir de um repertório compartilhado, um tipo de letramento que não depende da norma, mas do reconhecimento. Pelo contrário: é justamente nesse ajuste, entre intenção, material e execução, que elas encontram sua força.
Talvez, então, a questão não seja apenas reconhecer essas manifestações no cotidiano, mas perguntar o que estamos deixando de ver quando as tratamos apenas como improviso. E, mais ainda: quando essas visualidades atravessam outros circuitos, especialmente o digital, elas mantêm vínculos com os saberes e práticas que lhes deram origem, ou passam a funcionar apenas como superfície estética, deslocada de seus contextos?
✅ 5 PRINCIPAIS PONTOS
- O design vernacular nasce da prática, da observação e da experiência cotidiana.
- O que parece improviso muitas vezes é conhecimento aplicado com lógica própria.
- Cartazes, placas, barracas e objetos populares revelam cultura material viva.
- O vernacular articula memória, território, inovação e repertório compartilhado.
- A circulação digital dessas formas levanta a pergunta sobre preservação de sentido e contexto.
❓ PERGUNTAS PARA O LEITOR / CLUBE DE LEITURA (COM RESPOSTAS)
- O que é design vernacular? Resposta: É um modo de produzir formas e sentidos enraizado no uso, no contexto e na experiência acumulada.
- Por que o texto critica a ideia de improviso? Resposta: Porque muitas soluções populares parecem improvisadas, mas na verdade seguem uma lógica prática e cultural.
- O que as manifestações urbanas do texto têm em comum? Resposta: Todas expressam saberes transmitidos, adaptados e repetidos no cotidiano.
- Qual é a importância da cultura material no artigo? Resposta: Ela mostra que objetos, construções e artefatos revelam visões de mundo e relações com o ambiente.
- Qual é a principal pergunta final do texto? Resposta: Se as visualidades populares mantêm seus vínculos originais quando circulam no digital ou se viram apenas estética.
📚 FONTES E REFERÊNCIAS
- Riul e Santos (2015)
- Prown (1982)
- Lorusso, Mazza e Guida (2025)
- Conteúdo do arquivo enviado
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