📚Revolução Francesa: Um Marco de Liberdade ou o Início da Ruptura com a Tradição?
Por Mariana Pacheco
Jornal The Bard News – 9ª Edição – Maio de 2026
📊 INFORMAÇÕES BÁSICAS
Gênero: Ensaio / História & Cultura
Temas centrais: Revolução Francesa, liberdade, igualdade, fraternidade, tradição, identidade nacional, memória, Paris
📰 RESUMO
Quem caminha hoje por Paris encontra, para além da Torre Eiffel e da Champs-Élysées, uma cidade atravessada por marcas de 1789: resquícios da Bastilha, grafites que evocam a Comuna de 1871, inscrições de “République française ou la mort”. Em “Revolução Francesa: Um Marco de Liberdade ou o Início da Ruptura com a Tradição?”, Mariana Pacheco revisita o processo revolucionário não só como ruptura com o absolutismo, mas como início de uma longa tensão entre ideais e identidade.
O texto apresenta a ambivalência da Revolução heroica Marianne guiando o povo ou Madame Guilhotina sanguinária e discute motivações que vão muito além do preço do pão: o peso de Versalhes, a saturação com a corte parasitária, a ascensão burguesa sem reconhecimento. A autora percorre a queda da Bastilha, a Convenção, os clubes jacobinos e girondinos, a perseguição a opositores (incluindo mulheres), e mostra como o “cavalo selvagem” da revolta segue galopando em 1830, 1848 e 1968. No fim, questiona se a França, ao vestir-se de “Liberté, Égalité, Fraternité”, não se afastou de uma identidade mais profunda, deixando a Marselhesa soando oca em meio a rituais e espetáculos que já não encontram a mesma essência.
Revolução Francesa: Um Marco de Liberdade ou o Início da Ruptura com a Tradição?

Quem caminha pelas ruas de Paris, além da torre Eiffel e Champs Élysées, se atentar o olhar, encontrará uma cidade que resguarda seu passado revolucionário, sustentando até a atualidade o lema de “Liberté, Égalité et Fraternité”. As marcas de 1789 se mantêm desde os resquícios da Bastilha, na praça Henry Galli, até um grafite “République française ou la mort” na Igreja Saint-Paul-Saint-Louis, no Marais, escrito na época da Comuna de Paris (1871). A Revolução Francesa não se sustenta apenas no cerne social e histórico da França, mas também é lembrança turística.
Entretanto, como marco histórico considerável para o rumo da sociedade após ele, a Revolução Francesa é questionável em muitos âmbitos – há como vê-la trajada de Marianne, heroica e guiando o povo para mudanças significativas, ou como a madame Guilhotina, sem piedade e sanguinária. A reflexão é necessária não apenas para entender o processo que a França passou de 1789 a 1804 (quando Napoleão começa uma nova era), mas também o comportamento de um povo na atualidade.
Não se pode negar as motivações que levariam o povo francês a apoiar as requisições da burguesia durante a Assembleia dos Estados Gerais: desde Luís XIV e a construção de Versalhes, havia uma saturação diante de impostos absurdos e o sustento de uma classe social sem produção efetiva: durante o reinado do Rei Sol, estima-se que viviam de 3 mil nobres, aumentando para 10 mil até 1789. O palácio ainda gera renda significativa atualmente com os visitantes, mas sua construção às custas da população, também no sentido econômico quanto braçal, assombra os jardins e paredes de ouro. E podemos, sim, pensar que a primeira gota d’água foi aqui.
E o oceano de inconformidades se expandiu pelos reinados dos Luíses XV e XVI. Guerras, aumento do palácio e das bocas para alimentar, mais impostos e preços abusivos enquanto a jovem rainha Maria Antonieta encenava seu Carpe Diem na vila camponesa construída no final dos jardins. Alguns diriam, simplesmente, que a motivação da revolução foi o preço do pão, o alimento básico. Porém, é mais complexo: sim, a necessidade do povo na classe mais baixa é um belo discurso, mas a classe que crescia financeiramente sem reconhecimento e maiores cobranças é mais palpável.
O discurso de Liberdade é pintado quando a Bastilha – prisão de simbolismo absolutista – cai em 14 de julho de 1789 (data festiva até hoje), mas, na prática, a história pode recontar a filosofia de forma mais concreta: a anarquia precisou ser substituída por um novo governo. Então, que subam à tribuna os representantes do povo. Surge os Jacobinos, à esquerda, e os Girondinos, à direita. Eles decidiram a morte do rei e da rainha, também a vida do príncipe e da princesa. Se tornaram a voz da república, dignos de mediarem em seu nome, como a estátua no Panthéon, em lembrança da Convenção National, remete.
Se rompe com a tradição monarquista, se inicia a perseguição pelas coroas europeias, se condena opositores – entre eles, antigos apoiadores, mulheres que pediam também os Direitos da Mulher e da Cidadã, quando apenas homens falavam na tribuna. Os nomes das meninas de uma nova geração não rementem mais a Maria, mas aos ideais e às espadas, como o filme “Le Peuple et son Roi” demonstra bem. Um cavalo selvagem é liberto, mas o preço e visto também nos nomes escritos em vermelho nas paredes de Conciergerie, antiga prisão do período.
Os caminhos desta revolução não pararam com Napoleão, continuaram em 1830, pelos estudantes e 1848, pelo fim da Luís XVIII, se estenderam em 1964, na Primavera Francesa contra Charles De Gaulle. No fim, a revolta faz parte do sangue francês – franco, o povo originário da região, era visto como implacáveis e temíveis pelos demais germânicos. O preço foram cinco repúblicas e instabilidade política até os dias de hoje. Se aceita qualquer uma em pró da Fraternidade, e se marginaliza a identidade nacional; se iguala direitos constitucionais, mas não o tratamento social; a liberdade seria apenas um anseio? Sim, e que ainda permeia a França atual, em aberturas olímpicas escandalosas, mas que refletem o vazio da essência perdida a cada século após 1789.
A questão não se trata da liberdade conquistada na Revolução Francesa, mas do esquecimento da identidade francesa com os anos para sustentar ideais imaginados em meio a problemas atuais, e valores perdidos no anseio do desejo. E, de repente, a Marselhesa não faz mais sentido nos desfiles de 14 Juillet.

❓ PERGUNTAS PARA O LEITOR / CLUBE DE LEITURA (COM RESPOSTAS)
- Por que o ensaio apresenta a Revolução Francesa como algo ambivalente, entre Marianne e “madame Guilhotina”?
Resposta: Porque a Revolução pode ser vista tanto como marco heroico de ruptura com o absolutismo e afirmação de novos ideais (Marianne guiando o povo), quanto como processo violento, sanguinário e perseguidor (madame Guilhotina). O texto insiste nessa ambivalência para mostrar que os mesmos eventos que fundam o lema “Liberté, Égalité, Fraternité” também inauguram uma lógica de radicalização, purgas internas e execuções em massa, o que torna a herança revolucionária complexa e problemática. - Como Versalhes é usado no texto para explicar as tensões que levaram à Revolução?
Resposta: Versalhes aparece como símbolo máximo da opulência construída às custas do povo: muitos nobres sustentados sem produção efetiva, expansão do palácio, guerras e impostos abusivos. Embora o palácio hoje gere renda turística, o ensaio lembra que sua construção foi um “trauma” para a sociedade francesa, apontando para uma longa saturação com a corte que antecede 1789 e ajuda a explicar o apoio popular às demandas da burguesia. - Qual crítica o texto sugere em relação à narrativa simplificada de que a Revolução se deu “pelo preço do pão”?
Resposta: O ensaio reconhece a importância do preço do pão e da fome popular, mas considera essa explicação insuficiente. Ele enfatiza que a classe que mais crescia em poder econômico — a burguesia — também buscava reconhecimento e participação política, e que suas demandas estruturadas na Assembleia dos Estados Gerais foram centrais. Assim, a revolução é apresentada como resultado tanto da miséria material das camadas baixas quanto das frustrações políticas e simbólicas da burguesia. - De que maneira o texto relaciona a Revolução Francesa com a identidade francesa contemporânea?
Resposta: O ensaio mostra que o espírito de revolta se prolonga em 1830, 1848, 1968 e até hoje, e que a França segue se vendo como país de “Liberté, Égalité, Fraternité”. Mas, ao mesmo tempo, aponta um possível esvaziamento desses ideais: aceita-se qualquer república em nome da fraternidade, marginaliza-se uma identidade nacional mais profunda, igualam-se direitos formais sem garantir igualdade de tratamento. A Marselhesa nos desfiles de 14 de julho aparece como ritual que “já não faz tanto sentido”, sugerindo um descompasso entre símbolo e realidade. - O que significa, no texto, dizer que o problema não é a liberdade conquistada, mas “o esquecimento da identidade francesa com os anos”?
Resposta: Significa que a autora não questiona a importância da ruptura com o absolutismo ou das conquistas de direitos, mas aponta que, ao longo dos séculos, a busca por ideais abstratos e disputas políticas sucessivas teria diluído um senso mais concreto de identidade cultural. A França, ao sustentar lemas e imagens revolucionárias, corre o risco de sacrificar elementos da própria tradição e história em nome de versões sucessivas de modernidade, tornando a liberdade um “anseio” muitas vezes desconectado de uma base comum de valores e memória.
🏷️ HASHTAGS SUGERIDAS
#revolução francesa, #liberdade igualdade fraternidade, #história da frança, #marianne, #guilhotina, #bastilha, #identidade francesa, #tradição e modernidade, #mariana pacheco, #the bard news


