📚Dicionários De Cultura Popular Do Nordeste Brasileiro
Por Beth Baltar
9ª Edição – Maio de 2026 – Jornal The Bard News
📊 INFORMAÇÕES BÁSICAS
Gênero: Ensaio / Linguística & Cultura
Temas centrais: Cultura popular, Nordeste brasileiro, variação linguística, etnolinguística, sociolinguística, identidade regional, dicionários
📰 RESUMO
O Nordeste brasileiro, com sua vasta extensão e rica miscigenação de etnias (indígena, portuguesa e africana), é um caldeirão cultural onde a língua portuguesa se manifesta em variações únicas e vibrantes. No ensaio “Dicionários De Cultura Popular Do Nordeste Brasileiro”, Beth Baltar explora como a língua em uso, com seus regionalismos e particularidades, é um dos bens mais preciosos na formação da identidade social e cultural dessa região.
O texto mergulha nos campos da antropologia linguística, sociolinguística e etnolinguística para demonstrar a importância de se investigar a linguagem como um conjunto de práticas culturais. A autora apresenta uma tipologia de dicionários populares, alagoanês, baianês, cearensês, maranhês, paraibês, pernambuquês, piauiês, potiguar e sergipanês, como ferramentas essenciais para entender as variantes socioculturais e os níveis de linguagem que modelam os pensamentos e o modo de ser e de viver da população nordestina. Ao listar exemplos de termos comuns a vários estados, o ensaio ressalta a riqueza da oralidade e a capacidade da língua de recriar a realidade para o ouvinte, mostrando que esses dicionários não são apenas registros, mas pontes para a compreensão da identidade nordestina.
Dicionários De Cultura Popular Do Nordeste Brasileiro

Uma região é uma construção, resultado de interesses e agentes diversos, que disputam e/ou se aliam entre si para conquistar o poder de divisão de um espaço, dando a esse espaço uma identidade. Considerando que as cidades de uma região são formadas pela união de diversas raças e povos, não podemos ignorar a diversidade étnica que caracteriza um país. Na formação do povo brasileiro participaram três etnias: o índio, o português e o africano. A miscigenação étnica e cultural desses três elementos foi o pilar para a composição da população do Nordeste, porém essa mistura de raças não aconteceu de forma uniforme. O Nordeste é a região brasileira que possui a maior quantidade de Estados: Alagoas, Bahia, Ceará, Maranhão, Paraíba, Pernambuco (incluindo o Arquipélago Fernando de Noronha), Piauí, Rio Grande do Norte e Sergipe, consequentemente a miscigenação étnica faz com que a cultura se manifeste de diversas formas.
A língua oficial do Brasil é o português, porém em cada parte do país, pode-se dizer, há uma variação linguística característica, devido à mistura de muitas raças. Percebe-se então, que a língua, com suas variações, é indispensável à formação da sociedade. As particularidades da língua, em uma determinada comunidade linguística, apresentam grandes diferenças e essa comunidade é responsável pelos regionalismos, pela variação sócio-linguístico-étnico-cultural. Assim, é na língua do povo que se apresentam refletidas as representações e construções de uma sociedade, por isso se constitui como um dos bens mais preciosos.
A investigação da língua em uso, que se manifesta em situações cotidianas, na oralidade e na escrita, ressalta a importância de olhar a linguagem como um conjunto de práticas culturais, que se presume que os falantes possuam para que possam usar e interpretar as formas linguísticas. A antropologia linguística dedica-se ao estudo do papel das línguas e da faculdade linguística dos indivíduos, que é culturalmente medida. Para alguns estudiosos a antropologia linguística coexiste com a sociolinguística e a etnolinguística. A sociolinguística estuda as estruturas linguística e social, comparando-se, mostrando as variações sistemáticas entre elas, privilegiando a diversidade linguística, e limitando suas dimensões: a identidade social do falante, a identidade social do ouvinte e os elementos da comunicação. Assim, os conceitos e pensamentos de uma comunidade se estabelecem de acordo com as características de sua língua, indispensável na formação da sociedade. Para a etnolinguística, as principais preocupações têm sido padrão e funções da comunicação, natureza e definição da comunidade de fala, os meios de comunicação, os componentes da competência comunicativa, a relação da linguagem com a visão de mundo e a organização social, os universais linguísticos e sociais e as desigualdades linguísticas. Desse modo, ressalta-se a importância da linguagem como um conjunto de práticas culturais, a antropologia linguística com a responsabilidade interdisciplinar, a sociolinguística com o estudo da relação língua-sociedade e a etnolinguística, da relação língua-cultura.
Assim, por meio de dicionários de cultura popular, que são de três tipos: dicionário sobre o povo; dicionário para o povo; e o dicionário do povo ou popular, optamos por apresentar as variantes socioculturais da região nordestina do Brasil, pelos dicionários populares: alagoanês, baianês, cearensês, maranhês, paraibês, pernambuquês, piauiês, potiguar, sergipanês.

Apresentamos alguns exemplos de termos mais utilizados pelos nordestinos em seus diferentes Estados e considerados em pelo menos quatro Estados. Não visamos à exaustividade, mas mostrar o aparecimento de diversos termos usados na linguagem popular, do falar dos nordestinos.

| TERMOS | ESTADOS |
| ABILOLADO = abestalhado | AL / CE/ PE/ PI |
| APERREADO = agoniado | AL / CE / MA / PE / PI |
| ARENGA = briga | AL / CE / PE / PI / RN |
| ARRETADO = muito bom | AL / PB / PE / PI |
| ARRODEAR = dar volta por fora | AL /BA / MA /PE |
| AVEXADO = apressado | AL /BA / CE /MA /PB /PE /PI |
| AVIA = interjeição para apressar | AL / CE / PI / RN |
| ESTRIBADO = muito dinheiro | CE / MA / PB / PI |
| GARAPA = caldo de cana | AL / BA / MA / PI |
| GASTURA = agonia | AL / CE / PB / PI |
| INHACA = mal cheiro | CE / MA / PB / PE |
| LISO = sem dinheiro | CE / MA / PE / PI |
| MANGAR = chacotear | AL / BA / PB / PI |
| MURIÇOCA = pernilongo | AL / CE / MA / PE |
| PEBA = vagabundo | BA / CE / PB / PE / PI |
| QUENCA = prostituta | AL / CE/ MA / PI |
| RUMA = monte | BA / MA / PB / PI |
| TORAR = estourar | AL / BA / PB / PE |
| ZAMBETA = perna torta | AL / BA / CE / MA / PE |
| ZOADA = barulho | AL / MA / PE / PI |
Na perspectiva sincrônica dos estudos contrastivos, a etnolinguística firmou-se como decorrência da necessidade de se entender as variantes e as invariantes culturais, bem como os níveis de linguagem que modelam os pensamentos e o modo de ser e de viver da população nordestina.
Aquele que ouve apreende primeiro o discurso e por meio desse discurso, o acontecimento reproduzido. A situação inerente ao exercício da linguagem, que é a da troca e do diálogo, confere ao ato de discurso dupla função: para o locutor, representa a realidade; para o ouvinte, recria a realidade.
Assim, ao apresentarmos uma tipologia de dicionários populares, visualizamos a relação do objeto (dicionário) com os sujeitos (nordestinos) no espaço brasileiro, e a extensão do uso de uma língua, com expressões regionalistas, usuais e algumas vezes literárias.
❓ PERGUNTAS PARA O LEITOR / CLUBE DE LEITURA (COM RESPOSTAS)
- Como a miscigenação étnica contribuiu para a diversidade cultural e linguística do Nordeste brasileiro?
Resposta: A miscigenação de indígenas, portugueses e africanos foi o pilar para a composição da população do Nordeste. Essa mistura de raças não aconteceu de forma uniforme nos nove estados da região, resultando em uma manifestação cultural e linguística diversa. A variação linguística característica de cada parte do Nordeste é um reflexo direto dessa riqueza étnica e cultural, tornando a língua um dos bens mais preciosos na formação da identidade social. - Qual a importância da língua, com suas variações e regionalismos, na formação da sociedade nordestina?
Resposta: A língua, com suas variações e regionalismos, é indispensável à formação da sociedade nordestina. As particularidades linguísticas de cada comunidade são responsáveis pela variação sócio-linguístico-étnico-cultural, refletindo as representações e construções de uma sociedade. Os conceitos e pensamentos de uma comunidade se estabelecem de acordo com as características de sua língua, que se manifesta em situações cotidianas, na oralidade e na escrita, sendo um conjunto de práticas culturais que modelam o modo de ser e de viver da população. - De que forma a antropologia linguística, sociolinguística e etnolinguística contribuem para o estudo da cultura popular do Nordeste?
Resposta: A antropologia linguística estuda o papel das línguas e da faculdade linguística dos indivíduos, culturalmente medida. A sociolinguística foca nas variações sistemáticas entre estruturas linguísticas e sociais, privilegiando a diversidade linguística e as identidades sociais do falante e do ouvinte. A etnolinguística se preocupa com padrões de comunicação, a relação da linguagem com a visão de mundo e a organização social. Juntas, essas disciplinas oferecem uma abordagem interdisciplinar para entender as variantes e invariantes culturais e os níveis de linguagem que modelam os pensamentos e o modo de ser e de viver da população nordestina. - Qual a função dos dicionários populares (alagoanês, baianês, cearensês, etc.) na visualização da relação entre o objeto (dicionário) e os sujeitos (nordestinos)?
Resposta: Os dicionários populares servem como uma ferramenta para visualizar a relação entre o objeto (o dicionário) e os sujeitos (os nordestinos) no espaço brasileiro. Eles registram e apresentam as variantes socioculturais da região, mostrando a extensão do uso de uma língua com expressões regionalistas, usuais e, por vezes, literárias. Ao fazer isso, esses dicionários não apenas documentam a linguagem, mas também revelam como os nordestinos se expressam, pensam e constroem sua realidade através da língua. - Como o ato de discurso, na perspectiva da etnolinguística, confere uma dupla função à linguagem para o locutor e para o ouvinte?
Resposta: Na etnolinguística, a situação inerente ao exercício da linguagem, que é a da troca e do diálogo, confere ao ato de discurso uma dupla função. Para o locutor, o discurso representa a realidade, ou seja, ele usa a linguagem para expressar sua percepção e construção do mundo. Para o ouvinte, o discurso recria a realidade, pois ao ouvir e interpretar as formas linguísticas, o ouvinte reconstrói em sua mente o acontecimento ou conceito transmitido, moldando sua própria visão de mundo de acordo com as características da língua em uso.
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