📚Tecnologias Assistivas: Inovação a Serviço de Alunos com Necessidades Especiais
Por Jeane Tertuliano
Jornal The Bard News – 10ª edição – Junho 2026
📰 RESUMO
A escola ainda funciona como um modelo de “normalidade” que exclui quem tem necessidades diferentes. O texto de Jeane Tertuliano mostra como as tecnologias assistivas – leitores de tela, legendas, comandos de voz, agendas visuais – podem transformar a aprendizagem, tornando‑a acessível, participativa e justa. A autora parte da sua própria experiência como estudante autista, com TDAH e baixa visão, para demonstrar que a inclusão vai além de adaptações pontuais: é um redesign do ensino que parte do princípio de que não existe um único jeito de aprender.

Durante muito tempo, a escola foi organizada a partir de uma ideia silenciosa de normalidade: um padrão esperado de atenção, leitura, escuta e resposta. Um mesmo conteúdo, uma mesma metodologia e a expectativa de que todos aprendessem no mesmo ritmo. Quem se aproximava desse modelo avançava com menos atrito; quem não se encaixava aprendia a compensar, nem sempre com apoio, quase sempre sozinho.

Foi nesse cenário que iniciei minha trajetória escolar, ainda nos anos 2000, quando o acesso a tecnologias assistivas no Brasil, especialmente no ensino público, era bastante limitado. Mesmo anos depois, já no ensino superior, concluído em 2021, esses recursos seguiram ausentes de forma estruturada. Não se tratava de um caso isolado, mas da expressão de um sistema que, historicamente, não foi desenhado para contemplar a diversidade.
Ao longo desse percurso, compreendi, ainda que tardiamente, que aprender não é um processo uniforme. Sou autista, tenho TDAH e baixa visão. Minha experiência, no entanto, não é excepcional; ela dialoga com a de muitos estudantes que, por diferentes razões, encontram barreiras no modo como o ensino ainda está organizado.
É nesse ponto que as tecnologias assistivas deixam de ser um recurso complementar e passam a ocupar um lugar central. No campo educacional, elas são compreendidas como recursos, estratégias e práticas que ampliam o acesso, a participação e a permanência dos estudantes. Funcionam como mediações, no sentido proposto por Lev Vygotsky, ao interligar o sujeito ao conhecimento por meio de instrumentos que reorganizam a forma de aprender.
A presente mediação não é abstrata: ela se materializa em práticas concretas. Para estudantes com deficiência visual, leitores de tela, ampliação digital, contrastes adequados e organização textual acessível não apenas facilitam a leitura, mas a tornam possível. Para pessoas com deficiência auditiva, legendas, transcrições e o uso articulado de diferentes linguagens ampliam o alcance da informação. No caso de estudantes com deficiência física, recursos de acessibilidade motora, como softwares de comando por voz ou dispositivos adaptados, garantem interação efetiva com as atividades propostas.
Há, ainda, estratégias fundamentais para estudantes que demandam suporte na organização cognitiva e na regulação da atenção: a divisão de tarefas em etapas, o uso de agendas visuais, o estabelecimento de rotinas claras e a redução de estímulos dispersores. Essas práticas não simplificam o ensino; tornam-no estruturado e previsível. Por isso, tornam-no mais acessível. Impactam diretamente funções como planejamento, memória de trabalho e sustentação da atenção.
O ponto central é que esses recursos não atuam de forma isolada; incidem sobre diferentes dimensões da aprendizagem, como percepção, linguagem, cognição e autorregulação. Ao fazê-lo, evidenciam um princípio básico que a escola ainda resiste em assumir plenamente: não existe uma única forma de aprender. Assim como não deveria existir uma única forma de ensinar.
A perspectiva se articula com o Desenho Universal para a Aprendizagem, desenvolvido por David H. Rose e Anne Meyer, que propõe a construção de práticas pedagógicas flexíveis desde sua origem. Em vez de adaptar posteriormente, planeja-se considerando a variabilidade dos estudantes; em vez de responder à dificuldade, antecipa-se a diversidade.
Isso implica oferecer múltiplas formas de acesso ao conteúdo, diferentes possibilidades de expressão do conhecimento e estratégias variadas de engajamento. Implica, também, reconhecer que o ritmo de aprendizagem não é uniforme. E que flexibilidade não compromete a qualidade do ensino, mas a fortalece.
Essa é a inovação de que se fala: Não se trata apenas de incorporar tecnologias. Trata-se de transformar a lógica que sustenta o ensino. Trata-se de deslocar o foco do ajuste individual para a responsabilidade coletiva e de reconhecer que muitas dificuldades atribuídas aos estudantes são, na verdade, produzidas pelas barreiras do próprio sistema educacional.
Ao revisitar minha trajetória, especialmente após um diagnóstico tardio aos 28 anos, hoje compreendo com mais clareza que muitas das dificuldades que enfrentei não eram isoladas; elas revelavam um modelo educacional pouco preparado para lidar com a diversidade em sua complexidade.
Tal compreensão ultrapassa a experiência individual. Ela aponta para a urgência de práticas pedagógicas que não dependam do diagnóstico formal para garantir acesso, participação e permanência. Pesquisas na área da educação inclusiva já demonstram que ambientes acessíveis favorecem o desenvolvimento acadêmico, a autonomia e o engajamento de todos os estudantes. Ainda assim, permanece uma distância significativa entre o que se conhece e o que se realiza.
A lacuna não é apenas técnica: ela é, sobretudo, cultural. Está na permanência de práticas padronizadas, na formação docente insuficiente e na dificuldade de reconhecer a diversidade como elemento estruturante do processo educativo.
Tecnologias assistivas, nesse sentido, não são soluções pontuais; são parte de um projeto educacional que compreende o acesso como direito e a diferença como condição.
Se antes a limitação era de acesso, hoje o desafio é outro: implementação com intencionalidade e compromisso. A inovação que a educação precisa não está apenas na criação de novas ferramentas, mas na capacidade de utilizá-las para construir práticas mais justas, mais acessíveis e mais coerentes com a realidade dos estudantes.
Se a escola foi construída a partir de uma ideia silenciosa de normalidade, é preciso, agora, reconstruí-la a partir de um princípio explícito de diversidade. Aprender não deve ser condicionado à adaptação solitária a um modelo único. Deve ser garantido, desde o início, como possibilidade real para todos.

❓ PERGUNTAS PARA O LEITOR / CLUBE DE LEITURA
- Por que a autora considera a escola um modelo de “normalidade” problemático?
Resposta: Porque impõe um ritmo e método únicos, excluindo quem tem necessidades diferentes. - Quais tecnologias assistivas são citadas para estudantes com deficiência visual?
Resposta: Leitores de tela, ampliação digital, contraste adequado e organização textual acessível. - Como o Desenho Universal para a Aprendizagem (DUA) contribui para a inclusão?
Resposta: Propõe planejar desde o início múltiplas formas de acesso, expressão e engajamento, antecipando a diversidade. - Qual é a diferença entre adaptar o ensino após a dificuldade e antecipar a diversidade?
Resposta: Adaptar reage a problemas já existentes; antecipar cria um ambiente inclusivo desde o início, evitando barreiras. - Que mudança cultural a autora aponta como essencial para a inclusão?
Resposta: Reconhecer a diversidade como elemento central do processo educativo e mudar a formação docente.
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