Trese: Caçadora de Demônios para adultos

📚 Trese – Caçadora de Demônios para adultos

📊 INFORMAÇÕES BÁSICAS DO CONTEÚDO
⏱️ Tempo de leitura: 6–9 minutos
📝 Gênero: Crítica / ensaio sobre HQ, animação e folclore filipino

📰 RESUMO
O texto apresenta “Trese” como uma porta de entrada adulta para o folclore e a sociedade filipina, em contraste com o sucesso mais pop de “K-Pop Demon Hunters”. Antes do fenômeno de 2026, a série animada “Trese” (2021), adaptada das HQs de Budjette Tan e Kajo Baldissimo, já oferecia uma protetora da humanidade e mediadora entre o mundo humano e o sobrenatural em Manila. A autora destaca o peso da cultura de quadrinhos nas Filipinas e como essa linguagem torna mais acessível uma realidade pouco discutida na literatura asiática: um país que transita entre mitos ancestrais, colonização espanhola, conservadorismo religioso e identidades guerreiras e xamânicas.

Alexandra Trese, sexta filha do sexto filho guerreiro com uma xamã, atua como Lakan — guardiã racional, de preto, de cabelo curto — chamada pela polícia sempre que crimes fogem da lógica comum. Os casos envolvem aswang (metamorfos vampíricos e necrófagos), tiyanak (fetos/ bebês abandonados que retornam em busca do ventre materno), mortos vivos em busca de justiça contra a violência policial, sempre apoiada pelos gêmeos semideuses Kambal, filhos do deus da guerra Talagbusao. O terror, porém, não está só nas criaturas, mas no desequilíbrio causado pelos humanos ao violarem regras básicas de respeito, solidariedade e boas maneiras, que no submundo cobram um preço extremo.

Mariana Pacheco argumenta que, enquanto “K-Pop Demon Hunters” conquista públicos de todas as idades com música e carisma, “Trese” é um material assumidamente adulto: mergulha em sangue, injustiça, corrupção e na camada fina entre crença e realidade. Para enfrentar o que habita esse entre-lugar, não basta cantar: é preciso conhecimento antigo, coragem, frieza e um bom punhal.

 

Trese: Caçadora de Demônios para adultos

Antes do filme sul-coreano “K-Pop Demon Hunters” conquistar as premiações estadunidenses, como o Globo de Ouro e Annie Awards, neste ano de 2026, se tornando a animação de maior sucesso da plataforma de streaming Netflix e uma representação do folclore asiático para o mundo ocidental, em 2021 a série “Trese” já havia trazido uma protetora para a humanidade e um elo de equilíbrio entre o sobrenatural.

A série animada é a adaptação das Histórias em Quadrinhos homônimas filipinas escritas por Budjette Tan e Kajo Baldismo. É válido dizer que as Filipinas é um país que ama HQs, e tem ais quadrinistas ilustres e talentosos do que autores clássicos de outros gêneros literários. Isso não reduz o valor da obra, pelo contrário: a linguagem das Histórias em Quadrinhos acessibiliza uma cultura e sociedade pouco discutida dentro da literatura e dos estudos asiáticos, ainda que de forma desafiadora para tradução em países ocidentais.

No Brasil, por exemplo, “Trese” é publicado em seu formado de História em Quadrinhos apenas em 2025, pela editora Mori, voltada para títulos associados ao Terror e ao Suspense – adequado, aliás. É provável que os brasileiros mais leigos se conectem com a narrativa através da série animada previamente produzida pela Netflix. Entretanto, a narrativa de Tan e Baldismo é um prato cheio para conhecer Manila e também mergulhar em traços únicos e personagens que conversam com uma cultura e sociedade que ainda transita entre o folclore tradicional, a colonização espanhola, o conservadorismo religioso e a própria identidade entre guerreiros e xamãs.

Tanto nos quadrinhos quanto na série animada, “Trese” carrega uma aura mais sombria, quando a noite cai sobre as ruas de Manila (capital das Filipinas) e os perigos vão além de sequestradores e ladrões, se estendendo para criaturas do folclore místico das Filipinas, que espreitam nas sombras e nas camadas sociais. Casos de assassinatos, quando se mostram pouco convencionais, obrigam o sargento da polícia a chamar Alexandra Trese, a sexta filha do sexto filho mandirigma (guerreiro) com uma balaylan (xamã), assumindo ambas as funções e conhecimentos dos pais.

Alexandra Trese, diferentemente das personagens guerreiras do K-Pop, se veste de negro, tem cabelos curtos e é extremamente racional para cumprir sua função como protetora da humanidade – a Lakan. E seus casos, muitas vezes, não envolvem monstros bonitos, mas metamorfos vampírcos e necrófagos (aswang) envolvidos em tráfico de almas e carne humana; bebês abortados e abandonados que ressurgem em busca do ventre maternos (tiyanak), e mortos vivos convocados em busca da justiça de assassinatos causados pela polícia local, sem um julgamento.

A história traz figuras folclóricas, mas influentes em situações reais da sociedade filipina. E, por isso, a narrativa ganha o tom mais impactante e obscuro: o terror não está apenas nas figuras folclóricas e nas cenas de sangue, bem como as batalhas de Alexandra Trese junto com os Kambal – dois gêmeos semideuses filhos de Talagbusao (deus da Guerra), que se tornam seus guarda-costas particulares, mas em como a humanidade desequilibra a relação entre o sobrenatural por violarmos as regras.

No volume 2, Alexandra Trese explica ao sargento que as regras do submundo são simples: aquelas velhas regras sobre boas maneiras, mostrar respeito e ajudar o próximo. Só que as consequências de desobedecer às lições são mais extremas, porque o submundo não perdoa como o mundo humano. E é isso que nos assusta.

As Guerreiras do K-Pop conquistaram fãs de todas as idades, de crianças aos adultos, por trazer músicas cativantes, personagens únicas e boa estratégia de comunicação. Mas “Trese” é para um público adulto que não tenha medo de ler ou assistir a noite, ou mesmo de entender que existem coisas que não sabemos explicar ou lidar em nosso mundo e na fina camada de crença. E para enfrenta-los, saber cantar não é suficiente, é preciso se armar de conhecimento antigo, coragem, frieza e um bom punhal.

POR Mariana Pacheco

 

PERGUNTAS PARA O LEITOR / CLUBE DE LEITURA / CLUBE DE SÉRIES

  1. Você se percebe mais atraído pelos universos folclóricos em versões “leves” (como K-pop Demon Hunters) ou pelo tipo de abordagem sombria e adulta de Trese? Por quê?
  2. Em Trese, o que te parece mais assustador: as criaturas (aswang, tiyanak, mortos-vivos) ou o modo como a corrupção e a violência humanas quebram as “regras simples” do submundo?

📚 FONTES E REFERÊNCIAS

  • HQs Trese, de Budjette Tan e Kajo Baldissimo.
  • Série animada Trese (Netflix) e materiais de bastidores sobre adaptação de folclore filipino.
  • Filmes e animações asiáticas recentes que exploram mitologias locais, como “K-Pop Demon Hunters”.
  • Estudos introdutórios sobre folclore filipino (aswang, tiyanak, Talagbusao e outras entidades).

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